Uma opinião sobre software livre nas escolas

Ultrapassar obstáculos

Nota (1): este artigo foi produzido em grande parte pelo João Neves, da ANSOL, no contexto de uma publicação elaborada no sítio web esquerda.net. Ambos os intervenientes autorizaram a publicação no Escolas Livres. Uma pequena nota – o Projecto Escolas Livres não tem qualquer ligação a movimentos partidários.

Nesta intervenção de João Miguel Neves sobre o software livre e educação, o dirigente da Ansol afirma que o software livre nas escolas pode e deve ser aproveitado como uma ferramenta de formação integral do aluno, e potencialmente da própria escola e docência.

O projecto Escolas Livres foi criado por membros da Comunidade Ubuntu-PT, ANSOL, entre outros, com os objectivos de promover a adopção de software livre nas escolas portuguesas; promover a utilização de software livre educativo e de gestão escolar; estabelecer um local comum para a discussão e partilha de informações sobre Software Livre nas escolas; contribuir com traduções para português de aplicações educativas. O projecto está aberto a todos, professores, administradores de sistemas, alunos, membros da comunidade software livre, ou outras pessoas interessadas.

Queria desde já agradecer o convite que me foi feito para estar neste evento sobre software livre na educação. Os meus parabéns ao CRIE e ao Ministério da Educação pela iniciativa e pela organização. Queria também começar por agradecer a toda a comunidade que trabalhou no CD de Software Livre para as Escolas, à Sun Microsystems pelo apoio dado e por ter ajudado a tornar este projecto realidade, em particular ao Paulo Vilela, cuja persistência e vontade levou este projecto a bom porto.

Dados os agradecimentos, o desafio que me lançaram para hoje foi de falar sobre software livre na educação. Para mim isso implica apenas uma questão: O que queremos que um aluno aprenda?

Antes de responder, permitam-me que diga que a habitual ligação que é feita entre o software livre e a introdução da informática nas escolas é um erro que leva a desperdiçar uma oportunidade excelente de formação. A questão do software livre nas escolas não é apenas a maior escolha de ferramentas tecnológicas disponíveis para o ensino a um custo reduzido ou nulo.

O software livre nas escolas pode e deve ser aproveitado como uma ferramenta de formação integral do aluno (e potencialmente da própria escola e docência).

Para perceber isso é preciso compreender o conceito base de software livre: o software livre é todo o software que dá ao seu utilizador quatro liberdades: a liberdade de usar para qualquer fim, a liberdade de estudar como funciona e modificar o software, a liberdade de fazer e distribuir cópias, a liberdade de publicar versões modificadas. Muitos reagem a esta definição como se fosse algo gigantesco. Não o e. É o mínimo indispensável para manter o controlo das ferramentas que usamos. Se alguém me tentar vender um martelo que a qualquer altura pode deixar de funcionar porque apeteceu ao fabricante ou só me deixasse pregar pregos de uma determinada marca, podem ter a certeza que era devolvido no dia seguinte. Porque é que com o software haveria de ser diferente?

As quatro liberdades do software livre são o mínimo necessário para passarmos de uma situação de subserviência para independência, de vítima para decisor, de irresponsável para responsável pelos nossos actos. Muitas vezes a liberdade é assustadora por isso: implica uma escolha nossa que não teríamos de fazer conscientemente de outra forma. A maior resistência ao software livre não vem de quem o viu e experimentou, mas de quem não se sente à vontade para decidir sobre as suas próprias ferramentas.

Prefere que outros decidam por si, assumam a responsabilidade, tudo o que está implícito na frase “não me quero chatear com isso”.

A resposta à pergunta “O que queremos que o aluno aprenda?” para mim é clara: competência, liberdade e responsabilidade. Competência no sentido de capacidade de aprender e aplicar o que aprende. Liberdade no sentido de identificar que tem escolhas e de as exercer. E responsabilizar-se por elas. Eu sei, às vezes esta última parte parece tão longe da realidade…

Mas então o que é que o software livre pode levar uma pessoa a atingir? Em que é que pode ajudar?

No que toca à competência, estamos a olhar para o software como ferramenta. A variedade e disponibilidade de milhares de ferramentas cobrindo as mais diversas áreas servem para fomentar uma lógica de desenvolvimento: fazer mais com o mesmo. E no caso do software livre, o resultado pode ser rentável: uma comparação de ofertas de emprego nos Estados Unidos da América indica que as ofertas de emprego para OpenOffice.org são 23% mais bem pagas que as ofertas para MS Office[1]. O que acham de oferecer mais de 6000 euros por ano aos vossos alunos? Mas não vou aqui falar de ferramentas específicas: o programa da tarde está muito bem preenchido e, entre o Alinex e o CD de Software Livre na Escola”, têm na mão uma boa primeira amostra.

Mais liberdade e, consequentemente, mais responsabilidade: a liberdade de utilizar sem limites, sem censuras os programas implica a responsabilidade de assumirmos as consequências dos nossos actos. Perante um problema, um erro, passamos da situação de dependência ou mesmo subserviência do fornecedor para a independência:

* Actualizações de software forçadas? Não obrigado.

* Erros no programa? Podem ser corrigidos sem o fornecedor.

* Um roadmap que não interessa? Ignora-se, cada um pode fazer o seu (no mundo real eles também são ignorados…).

A decisão passa para o utilizador. Perante um problema, a solução não tem de passar por contactar o fornecedor e esperar pela resposta final deste. Há mais escolhas: corrigir, aprender, comprar uma solução a outros. No final, a escolha de passar a solução a outros está disponível. Cada um toma as suas decisões.

Melhor ainda, todas estas hipóteses que se abrem permitem que cada um faça o desenvolvimento do que lhe interessa e abre caminho a cada um construir o seu percurso e assumir a responsabilidade por ele. Para uma escola pode ser assustador, mas o resultado vale a pena: uma sociedade de pessoas capazes de assumir responsabilidades, de evoluir por elas, de participar e compreender o que passa à sua volta. Uma sociedade de pessoas livres em vez de uma sociedade de vítimas.

O software livre pode dar uma nova sensação de poder, que deve ser temperada com a noção de responsabilidade. É o tipo de educação para a liberdade que vejo perder-se hoje em dia nas famílias e a que as escolas têm tentado e conseguido dar respostas sem meios nem apoio numa área completamente nova para elas.

É o objectivo final que desejamos: que da escola nos saiam cidadãos livres, responsáveis, autónomos. O software livre não nos vai garantir isso. Aprendi o suficiente da utilização de computadores em ambiente escolar para saber que na grande maioria dos casos o computador e as calculadoras devem ficar à porta da sala de aula. Mas o modelo do software livre e a sua utilização bem enquadrada pode ser uma ferramenta para pais e professores garantirem novas gerações mais responsáveis, competentes e empreendedoras. Não são apenas mais bits e bytes, estamos a falar de liberdade e responsabilidade. Estamos a falar da sociedade que queremos.

E se restarem dúvidas a alguém, esta é a razão porque eu considero a utilização de software livre “sempre que apropriado”, quer dizer, “sempre que possível”.

[1] – http://www.indeed.com/salary?q1=OpenOffice&l1=&q2=%22Microsoft+Office%22&l2=

One thought on “Uma opinião sobre software livre nas escolas

  1. jneves
    8 Novembro, 2007 at 10:40

    Este texto foi a base da minha intervenção no evento "Software Livre nas Escolas" do Ministério da Educação que decorreu no dia 5 de Julho de 2007.

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