Entrevista com os criadores do Animall

Boa tarde caro Tiago e Nuno, responsáveis pelo projecto do SAPO Summerbits animall, destinado a criar animações automáticas a partir de imagens e sons.

De onde surgiu a vossa ideia e a motivação para este projecto em
particular?

A ideia surgiu uns meses antes do início do Summerbits, pelo Nuno. Já há um tempo que ele falava como poderia ser interessante ter uma alternativa livre ao Animoto. A ideia desenvolveu-se e ele sugeriu-me a participação no Summerbits, com o objectivo de fazer apenas o motor de animações, portável e modular, de forma a que fosse tão simples quanto possível o desenvolvimento de novos plugins. Decidimos escrever juntos a proposta e foi aí que tudo começou.

Querem descrever em linguagem o menos técnica possível, as tecnologias livres subjacentes a que recorreram e para que servem?

Vamos tentar ser o menos técnicos possível, o que se torna complicado, dada a natureza do projecto. Ora, antes de mais, a linguagem de programação escolhida foi o Python, para os que não conhecem, uma linguagem cada vez mais usada nas aplicações para os utilizadores de Desktop, dada a sua facilidade e rapidez de utilização. Usámos ainda o Gstreamer, que permite construir pipelines de trabalho multimédia. Isto pode ser visto como uma linha de fabrico que, na prática, permite dar na entrada os ficheiros com que queremos trabalhar, fazê-los passar por diversas secções que os alteram e configurar uma saída que produz o resultado final. Usámos por fim o GnonLin, plugin para o Gstreamer que permite criar vários pontos de entrada para a pipeline, de forma a que várias imagens sejam sequencialmente processadas, uma vez que por defeito o Gstreamer só poderia processar um ficheiro. São ainda usados
ficheiros XML na configuração.

Que funcionalidades gostariam de ver implementadas a médio-longo prazo no vosso "Animall"?

A melhor evolução que poderíamos ver para o AnimAll, seria a resolução do problema que o Gstreamer ainda apresenta, passando assim a ter as transições a funcionar a 100%. A longo prazo, quem sabe, porque não ver um SAPO AnimAll, que usasse o nosso motor e uma interface web para criar animações, por exemplo, a partir do SAPO fotos, guardando-os directamente no SAPO vídeos, ou permitindo o download das mesmas.

Neste momento concordarão certamente que as funcionalidades são reduzidas. Mas, assumindo que o desenvolvimento continuará após o SAPO Summerbits, como esperamos que continue, se atingisse um elevado grau de maturidade/funcionalidades, julgam que junto do utilizador comum poderia colher alguma atenção face a serviços que disponibilizam estas
funcionalidades online hoje em dia? Ou será que o motor é mais interessante do ponto de vista do programador e do programador que disponibiliza serviços na web?

Sem dúvida, o principal objectivo para o Summerbits era ter o motor a funcionar, não com o máximo de funcionalidades possíveis, mas com a melhor estrutura e organização possível. Embora ainda não tenha sido escrita documentação para tal, a criação de plugins é agora possível por qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento de python e, no caso de querer criar um plugin para a parte de edição de vídeo/audio, Gstreamer.

A meu ver, uma vez que é um motor de criação de animações, não é orientado ao utilizador final, mas sim para servir de suporte a outras aplicações, web, ou não, que criem uma interface de ligação para com o utilizador. Na prática, estas aplicações deverão apenas criar o ficheiro de configuração segundo os dados do utilizador, retornando depois o vídeo gerado ao utilizador.

Muito importante neste projecto foi ficar a saber o que se pode, e o que não se pode, com as tecnologias utilizadas. Este conhecimento é essencial para avançar com o projecto ou mesmo para criar um novo com o mesmo fim.

A nossa pergunta política habitual… Se fossem responsáveis pelo
Plano Tecnológico português, a que iniciativas dariam prioridade?

Sem dúvida, à implementação de Software Livre nos serviços públicos. Os dinheiros gastos pelo Estado em licenças de Software anualmente são astronómicas, o que, a meu ver, e penso que em quase todos os casos, não se justifica, dada a vasta oferta de Software estável, simples e de elevada qualidade que estas comunidades nos trazem.

Acho também que todo o software produzido pela e para a administração pública deveria ser publicado como SL, não há justificação nenhuma para repetir gastos com o mesmo software, seja ele produzido por funcionários públicos ou encomendado com dinheiros públicos.

Outro ponto muito importante e sem dúvida prioritário é a a formação de recursos humanos em tecnologias livres. Acredito que a falta de formação e apoios nesta área não ajudam a diminuir a dependência externa em relação às TI. Mais conhecimento levaria à criação de mais emprego na área e, a meu ver, a uma diminuição da dependência externa.

Obrigado pelo vosso tempo.

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